Mineiros abrem mão de tirar a sonhada carteira de motorista

Por Autoescola Piloto em 07/06/2019 às 0:09

Número de primeiras habilitações despencou 29,2% no Estado em cinco anos, segundo Denatran.

Clarisse Souza

O serralheiro Gisley Ribeiro da Silva, 33, sempre quis dirigir. Desde 2013 ele tenta iniciar o processo para conseguir a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) na categoria B. A questão financeira, no entanto, tem sido uma barreira para conquistar o sonho. “Neste ano mesmo, fui ver os preços iniciais e já me assustei”, afirma.

O alto custo para conseguir o documento é um dos fatores que fizeram cair o número de primeiras habilitações em Minas Gerais nos últimos cinco anos. A redução entre 2013 e 2017 chegou a 29,2%. Em 2018, o setor começa a apresentar sinais de estabilização, mas, além do peso no bolso, a burocracia para concluir todas as etapas do processo e o uso de aplicativos de transporte seguem afastando os alunos das autoescolas, que adotam medidas para tentar reverter esse quadro.

Segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em 2013 foram emitidas em Minas 64.182 carteiras de categoria A e 212.122 de categoria B, em um total de 277.122 novos habilitados para pilotar motocicletas ou dirigir veículos que não excedam 6.000 kg de peso bruto total e lotação máxima de oito passageiros. Em 2014, esse número chegou a subir, mas a partir de 2015 a falta de alunos atingiu em cheio as autoescolas. O ano mais crítico até agora foi 2017, quando foram emitidas 196.090 carteiras A e B no Estado.

De janeiro a setembro de 2018, Minas habilitou 144.443 condutores nas categorias A e B, situação considerada estável diante do mesmo período de 2017, quando 140.824 CNHs foram emitidas. Ainda assim, o auxiliar de produção Jordan Matheus Gonçalves, 22, adia o momento de iniciar as aulas: “Eu tenho muita vontade de tirar a carteira, mas, no momento, estou sem condições e não posso nem parcelar o valor das aulas”.

Valor

O Sindicato dos Proprietários de Centros de Formação de Condutores do Estado de Minas Gerais (Siprocfc-MG) confirma que o custo é um empecilho. “A questão financeira é um dos principais motivos, mas as pessoas não levam em consideração que é um investimento que será feito uma única vez”, afirma o presidente da entidade, Alessandro Dias.

Para se ter uma ideia, o gasto médio para se tirar a primeira habilitação de categoria B em Minas fica em torno de R$ 2.500, segundo o sindicato que representa as autoescolas. Conseguir a CNH categoria A é um pouco mais barato, custa em média R$ 2.100. O valor inclui exame médico e psicológico, taxas pagas ao Estado, curso teórico, prova de legislação e 25 aulas de direção. No caso da motocicleta, muda apenas o número de aulas de direção, para 20. Caso o aluno seja reprovado em alguma das etapas, terá de pagar novamente para repetir o teste.

Em 2013, quando a busca pela primeira habilitação era maior, o custo médio em BH era de R$ 1.340, segundo pesquisa feita pelo Mercado Mineiro na época. Mas, para Dias, é preciso levar em consideração que há cinco anos “a realidade era outra, porque a carga horária era menor”.

Burocracia

Demora. O longo processo até colocar as mãos na CNH também contribui para o desinteresse, diz Alessandro Dias, que cita as várias etapas e exames: “Tiram a vontade de parte das pessoas”.

Aplicativos surgem como alternativa

A utilização de aplicativos também é citado pelo presidente do sindicato das autoescolas para explicar a queda nas habilitações. “Há meios alternativos de transporte, principalmente nos grandes centros. Essa escolha passa por questões como a segurança. As pessoas estão abrindo mão de ter um veículo por riscos no trânsito e assaltos. Além disso, manter um carro é caro”, observa Alessandro Dias. Esse é, inclusive, o mote de campanhas de aplicativos de transporte, como Uber e Cabify.

A redução do número de novos habilitados também passa por uma mudança de comportamento da população, de acordo com o consultor em engenharia de transportes Osias Baptista Neto.

“É uma questão mundial. A juventude já não tem mais aquela vontade de ter carro, como antigamente”, afirma. Neto lembra que muitas pessoas têm trabalhado em casa e fazem compras pela internet, o que diminui a necessidade de longos deslocamentos.

Pesquisa

Para entender o afastamento dos mineiros das autoescolas, o sindicato da categoria prepara uma pesquisa, que deve ser aplicada neste ano na capital. O público-alvo serão os homens, que, segundo a entidade, foram os que mais perderam o interesse em adquirir a carteira de habilitação.

Cobrança

Medidas mais imediatas também têm sido tomadas, como o maior parcelamento de valores e a flexibilização de horários, com aulas também aos sábados e aos domingos.

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